Eu sou carioca, nasci e cresci no Rio de Janeiro, fiz toda a minha formação médica no Rio também, faculdade e duas residências. Depois passei uns anos na Europa fazendo pesquisa e cá estou de volta ao Brasil. Esse ano, um tempo depois de chegar, recebi um convite para trabalhar no Hospital Albert Einstein e me mudei esta semana para São Paulo.

Como todo começo, é um pouco lento. Estou conhecendo aos poucos a estrutura e funcionamento dos serviços médicos, vou a algumas sessões clínicas e atendo a alguns pacientes.

Esta semana, um caso me chamou a atenção numa sessão clínica: uma mulher, em torno de 50 anos, com um câncer agressivo, mas que apresentou resposta brilhante ao tratamento proposto. Após alguns anos, a doença regressou e novamente o tratamento com um novo esquema de quimioterapia teve um resultado excelente. Agora, a doença começa a voltar pela segunda vez, desta vez mais agressiva e espalhada por diversos órgãos, nas sessões clínicas discutia-se a conduta a ser tomada.

Hoje pela manhã fui atender a essa paciente no setor de quimioterapia, era o dia do primeiro ciclo do novo tratamento. Fui conhecer a pessoa que eu conhecia apenas por ressonâncias, tomografias e PET-CTs. Uma senhora muito tranquila e simpática, completamente ciente da gravidade da sua doença e das possibilidades do tratamento. Conversamos um pouco sobre as condutas médicas e exames a serem feitos.

Passados esses 10 minutos de informações técnicas, começamos a falar sobre a vida, minhas impressões sobre São Paulo, o tempo que eu passei estudando na Europa e as impressões dela da Europa, e, claro, sobre a comida do hospital. Ficamos mais tempo batendo papo do que num atendimento médico formal.

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Nós dois sabemos que a doença é muito grave e a resposta a esse tratamento, mesmo que bem escolhido e administrado no momento certo, pode não ser tão brilhante como nos dois tratamentos anteriores. Independente disso, a vida continua, as conversas são as mesmas e, enquanto a gente está por aqui, a gente vai tocando a vida. Acho que a consulta foi uma metáfora disso, um pequeno e necessário tempo para as medicinidades e o resto para bater papo.

Uma meia hora depois acabou a infusão e eu me despedi.

“Até semana que vem!”

“Semana que vem é o meu descanso, eu vou viajar, só volto na outra.”

“Até a outra, então!”

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