Fosfoetanolamina sintética (fosfoamina), entenda porque essa substância não é um medicamento contra o câncer.

É muito comum vermos na mídia novas moléculas e tratamentos milagrosos contra o câncer que, na prática, não são utilizados para o tratamento dos pacientes. Isto gera muita angústia em pessoas que estão em tratamento e uma espécie de teoria da conspiração, como se existissem interesses econômicos velados para que não se descubra “a cura” do câncer.

Uma reportagem deste tipo começou a ser veiculada sobre a Fosfoetanolamina.

Para se avaliar se uma substância pode se tornar um medicamento contra o câncer é necessário que se conheça um pouco do processo de descoberta de novos medicamentos. Veja a imagem abaixo.

A fosfoetanolamina só foi estudada em laboratório. Nunca houveram estudos em pacientes com câncer.

A fosfoetanolamina só foi estudada em laboratório. Nunca houve estudos em pacientes com câncer. Os triângulos vermelhos são o início do processo, a pesquisa de laboratório, em seguida vêm os triângulos azuis, as pesquisas em seres humanos. Passada esta fase o medicamento deve receber aprovação órgão regulador (triângulo verde), no Brasil dado pela ANVISA. Em seguida o sistema de saúde avalia se vale a pena incorporar ou não o medicamento (no SUS por exemplo), esses são os triângulos roxos. Finalmente os médicos têm que começar a prescrever o remédio e os pacientes avaliarem se querem ou não tomá-los (triângulos laranjas).

Para que qualquer substância se torne candidata a ser um medicamento contra o câncer ela deve passar por várias fases de experimentação em laboratório. Essas experiências têm como objetivo avaliar se a substância é capaz de matar células de câncer in vitro, ou seja, células colocadas em pequenas garrafas de vidro ou plástico. Se for comprovada sua eficácia, os estudos passam então para experimentos com animais. Como regra geral tumores humanos são colocados em ratos e a substância é aplicada nestes animais para avaliar se consegue reduzir os tumores sem ser tóxica a ponto de causar a morte do animal, o chamado estudo in vivo.

fosfoetanolamina 2

Esquema que mostra as fases de desenvolvimento de novos medicamentos contra o câncer.

Ser capaz de matar uma célula cancerosa não é o suficiente para que uma substância seja um medicamento. Por exemplo, se colocarmos água sanitária em células cancerosas, todas elas vão morrer, porém, se injetada na veia de uma pessoa, a água sanitária vai causar sua morte. Oxigênio em altas concentrações gera radicais livres que matam uma fração importante das células cancerosas, no nosso corpo, esse efeito não acontece, e oxigênio suplementar não tem nenhum efeito contra o câncer.

Este período de experimentação em laboratório é longo, e demora muitos anos, é necessário que se conheça bastante da molécula antes que ela comece a ser testada em pessoas. A fosfoetanolamina sintética só tem estudos até esta fase, ela nunca foi testada em pessoas.

Quer saber mais sobre pesquisa de novos medicamentos em laboratório? Clique aqui para ler uma matéria completa.

A partir deste momento, se a substância passar em todos os testes, ela está pronta para entrar em fase de testes com seres humanos. Em média, para cada 25 substâncias que comecem a ser testadas como potenciais medicamentos, apenas 1 se mostra eficiente para o tratamento do câncer. Os estudos em seres humanos são divididos em três fases, conhecidas como fase 1, fase 2 e fase 3. Na primeira fase doses muito baixas da substância são administradas para avaliar se há efeitos tóxicos do medicamento, caso o medicamento não cause problemas as doses vão sendo aumentadas até que se descubra a dose ótima para continuar as pesquisas. Nos estudos de fase 2 o medicamento é dado para pessoas na mesma dose e então se avalia, por exames de imagem como tomografias e ressonâncias por exemplo, se o medicamento foi eficaz em reduzir o tumor. Finalmente no estudo de fase 3, se avalia se a substância é melhor do que os tratamentos já disponíveis. Em geral muitas pessoas com câncer se voluntariam para entrar no estudo, o tratamento é então escolhido ao acaso, metade recebe o tratamento já existente e a outra metade a substância em teste. De tempos em tempos os resultados vão sendo comparados entre os dois grupos de tratamento, caso um grupo tenha resultados melhores que o do outro grupo, o estudo é encerrado e todas as pessoas começam a receber o melhor tratamento. Nem sempre o melhor tratamento é o novo, por vezes o tratamento já existente produz melhores resultados e menos efeitos colaterais.

Caso você esteja em tratamento e tenha interesse em participar de estudos com novos medicamentos existem muitas opções. Hoje há milhares de estudos abertos testando centenas de novos medicamentos. Clique aqui para saber como fazer para participar de um estudo clínico.

Apenas após ter todos esses resultados disponíveis a nova substância pode ser chamada de medicamento. Todos estes resultados devem ser submetidos à autoridade de saúde para que ela aprove que o medicamento seja comercializado e usado no dia a dia. Esta é uma política comum em todos os países do mundo. No Brasil esta avaliação é feita pela ANVISA (visite aqui o site), nos Estados Unidos pelo FDA (visite aqui o site), e na Europa pela EMA (visite aqui o site). Em nenhuma parte do mundo uma substância vai ser aprovada como medicamento para uso em humanos sem que tenha sido comprovada sua segurança e eficácia. Veja bem, chama muita a atenção uma substância que mata as células de câncer, mas pouco se fala sobre sua segurança. Uma substância que não se conhece pode ser muito perigosa para o corpo humano, se ela consegue matar uma célula cancerosa é bastante provável que ela consiga também matar uma célula saudável e possa trabalhar mais como um veneno do que como um medicamento. É extremamente importante saber também a relação desta substância com outros medicamentos de uso habitual como os remédios para pressão alta ou diabetes, aumentam ou diminuem seus efeitos? Causam mais efeitos tóxicos?

Para se obter informações relevantes sobre os medicamentos o melhor banco de dados é o pubmed.com (clique aqui para visitar), neste banco de dados são indexados todos os artigos científicos relevantes, são milhões de publicações e o número só aumenta todos os dias. As buscas podem ser feitas tanto pelo nome do autor, como do medicamento, como da doença, é parecido com uma busca no google. O processo científico tem que passar pela publicação e apresentação dos resultados em congressos. Só assim a comunidade científica vai poder avaliar se as descobertas de um pesquisador são importantes e se os estudos foram feitos de maneira correta. Inclusive, quando uma substância ou novo campo da ciência é descoberto e apresentado, vários outros pesquisadores começam a trabalhar juntos, acelerando o desenvolvimento. Hoje é praticamente impossível que um novo medicamento seja aprovado sem que nenhum estudo tenha sido apresentado e que o medicamento não seja de conhecimento da comunidade médica.

Quando eu fiz meu mestrado eu trabalhei com a substância PLX4042, hoje o medicamento Vemurafenib (nome comercial Zelboraf, veja aqui uma matéria sobre ele), muitos anos antes da aprovação como medicamento toda a comunidade científica já conhecia essa molécula. Em dezembro de 2013 eu assisti a apresentação dos inibidores de check point CDK4/6 no congresso americano, dois anos depois esses medicamentos foram aprovados para tratamento do câncer de mama, o chamado Palbociclib (veja aqui uma matéria sobre o estudo inicial, e o segundo estudo). Ao longo de 2015 vários estudo foram apresentados com imunomoduladores, finalmente depois dos resultados finais os medicamentos Nivolumab e Pembrolizumab hoje estão disponíveis (clique aqui para ver uma matéria). Nos últimos 4 anos, durante meu doutorado, eu participei de estudos com a molécula Pertuzumab, para o tratamento do câncer de mama, este estudo ainda está em andamento, com resultados previstos para o meio de 2016. O estudo já foi apresentado em diversos congressos e toda a comunidade científica aguarda seus resultados (clique aqui para ver uma matéria).

Mudando um pouco de tópico, eu gostaria também de falar sobre a teoria da conspiração que cerca a indústria farmacêutica e o desenvolvimento de medicamentos contra o câncer. O que move a indústria farmacêutica? Como o próprio nome diz, se trata de uma indústria, e como qualquer indústria ela cria produtos que serão vendidos e revertidos em lucro para seus acionistas. Embora a saúde não possa ser tratada como um bem de consumo, como uma calça jeans ou um iphone novo, a lógica de mercado também se aplica quando falamos de medicamentos. Quanto melhor e mais eficaz for o medicamento, mais ele será vendido e maior será o lucro desta empresa. A indústria farmacêutica não tem nenhum interesse em “esconder medicamentos” que poderiam curar o câncer. Hoje, em todo o mundo, acontecem 14 milhões de novos casos todos os anos. Criar um medicamento que curaria 14 milhões de pessoas, todos os anos, seria o melhor negócio que alguém poderia ter.

Já quanto à veiculação de notícias na mídia que a gente vê todo dia no google. Há muita gente comprometida e competente escrevendo hoje, no entanto, o sucesso de uma matéria é medido pelo número de pessoas que a leem, o que pode hoje ser contabilizado pelo número de cliques dados na matéria na internet. Não necessariamente estas matérias são isentas, por vezes expressam a opinião do autor, como eu expresso a minha aqui, no entanto não necessariamente o autor é conhecedor ou especialista no tópico que ele está escrevendo. Quando houver matérias sobre câncer e novos medicamentos verifiquem se as sociedades oncológicas foram ouvidas, ou se pediram a opinião de um oncologista ou de agências reguladoras como membros da ANVISA. Toda história tem, no mínimo, três versões: a minha, a sua e a verdadeira.

Em conclusão a fosfoetanolamina sintética é uma substância que nunca foi testada em seres humanos, portanto, mesmo que pareça promissora para alguns pesquisadores, ela não é um medicamento contra o câncer até que se prove sua segurança e eficácia com estudos sérios e transparentes.

Você está a procura de um novo tratamento para o seu caso? Há muito medicamentos novos em estudo! Converse com seu médico e decida qual é o melhor para você! Clique aqui para saber como fazer para participar de um estudo clínico.

ATUALIZAÇÃO 1 – Veja a nota da Fiocruz explicando a polêmica criada em torno da fosfoamina.

Fiocruz esclarece dúvidas sobre suposto medicamento contra o câncer.

ATUALIZAÇÃO 2 – Veja uma segunda reportagem da Globo onde é explicado porque a fosfoamina não é um medicamento.

“Cápsula da USP” contra o câncer não foi testada clinicamente; entenda.

ATUALIZAÇÃO 3 – Veja o que diz o Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) sobre a fosfoamina e o seu pesquisador.

Esclarecimentos à Sociedade

ATUALIZAÇÃO 4 – USP divulga nota explicando que a fosfoamina não é um remédio.

USP divulga comunicado sobre a substância fosfoetalonamida.

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