Biossimilares, uma alternativa para aumentar o acesso a medicamentos e melhorar o tratamento contra o câncer.

Um dos primeiros relatos sobre câncer, da época do Egito antigo, dizia: “não há tratamento”. Hoje, aproximadamente 3 mil anos depois, a medicina já é capaz de curar metade das pessoas que são diagnosticadas com câncer.

Antigo papiro egípcio mostra um médico tratando um paciente.

Antigo papiro egípcio mostra um médico tratando um paciente.

Isto só foi possível com o avanço do conhecimento da doença e com uma abordagem ampla que inclui avanços nos métodos de diagnóstico precoce, quando a chance de cura é mais alta, como a mamografia para o câncer de mama e o exame de Papanicolau para o câncer do colo uterino; melhora nas técnicas cirúrgicas, que se tornaram mais precisas e com melhores resultados funcionais e estéticos, incluindo procedimentos através da pele usando agulhas, e assim evitando cortes com bisturi; com a radioterapia, que ao longo dos anos tem se tornado cada vez mais precisa e com menos efeitos colaterais; e com o tratamento medicamentoso, que hoje conta com um grande número de medicamentos, incluindo quimioterapia, hormonioterapia, anticorpos, inibidores de mutações e outras classes de medicamentos.

Estes avanços, no entanto, vieram com custos. Para que se disponibilizem estes tratamentos é necessário que se invista recursos em saúde, sejam eles através dos planos de saúde ou através do sistema público de saúde. Os gastos em saúde aumentaram em praticamente todos os países do mundo e este gasto está relacionado a uma melhoria da qualidade e da expectativa de vida. No entanto não basta apenas investir recursos em saúde, é necessário que se invista em áreas que realmente façam a diferença para a vida das pessoas.

Quando se fala de câncer existem algumas áreas estratégicas que merecem destaque. A primeira são medidas para evitar o aparecimento da doença, como combater o cigarro, vacinar meninas e meninos contra o vírus do HPV, que é o principal causador do câncer de colo uterino (conheça mais sobre a vacina aqui), e incentivar uma alimentação saudável e a prática de esportes (leia uma matéria sobre prática de exercícios e câncer), entre outros. A segunda área importante é a detecção precoce da doença, disponibilizando exames de mamografia (veja aqui uma matéria), colonoscopia (veja aqui a matéria) e outros capazes de descobrir o câncer quando ele ainda se encontra pequeno e tem mais chances de ser curado (veja aqui uma matéria sobre esses exames). E a terceira área envolve disponibilizar cirurgias, técnicas de radioterapia e medicamentos que realmente façam a diferença no resultado do tratamento (conheça vários novos tratamentos contra o câncer).

Os medicamentos mais modernos e eficientes contra o câncer são aqueles que agem em características específicas da doença, moléculas e mutações que existem apenas no câncer e não nas outras células normais do corpo (visite aqui o site do atlas do genoma do câncer para saber mais). Uma das classes mais importantes destes medicamentos são os anticorpos, substâncias que agem como uma bomba teleguiada que acerta apenas um tipo específico de alvo. Para vários tipos de câncer os pesquisadores tem conseguido descobrir características únicas, e então fazer anticorpos que acertem apenas elas, sem acertar as células normais do corpo. Este é o caso de medicamentos como o trastuzumab, o rituximab, o cetuximab, o panitumumab, entre muitos outros.

Estes são medicamentos muito complexos e sua fabricação é extremamente complicada. Eles têm que ser feitos por células vivas, modificadas geneticamente para produzirem esses medicamentos, o que é bastante diferente dos medicamentos tradicionais, que têm uma produção mais simples, em laboratórios. Comparando com a fabricação de alimentos seria como se os medicamentos tradicionais fossem um pó de bolo que se compra pronto no supermercado e só tem que ser misturado e assado enquanto os anticorpos são como a fabricação do vinho que passa por diversas etapas, longas e detalhadas. Por essa comparação fica fácil de entender que o custo dos medicamentos mais modernos é bem mais alto. Esse custo tem impedido, ou atrasado em muitos anos, o uso destes medicamentos nos sistemas públicos de saúde de vários países do mundo.

aspirina

Esquema que mostra a estrutura simples de um conhecido medicamento, a aspirina.

anticorpo

Nesta imagem se observa a complexidade molecular de um anticorpo, substâncias que vêm sendo cada vez mais utilizadas no tratamento do câncer.

Como fazer então para acelerar o uso destes medicamentos e reduzir seu custo?

Uma iniciativa muito interessante, e que eu fico feliz de estar participando, é o desenvolvimento de medicamentos biossimilares, que seriam uma espécie de “genéricos” de medicamentos produzidos por células. A diferença é que todo o processo de fabricação tem que ser praticamente “reinventado” para que o medicamento biossimilar seja tão bom quanto o medicamento original. Isto exige algumas etapas de estudos em laboratório e com pessoas que se voluntariam para participar da pesquisa. Esta iniciativa é promissora não apenas porque vai desenvolver medicamentos de ponta a preços mais acessíveis, mas vai permitir que muitos países adquiram medicamentos que eram muito caros para seus sistemas de saúde, incluindo o Brasil. Se nós pensarmos que de cada 10 pessoas com câncer 7 moram em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos dá para ter uma noção de quão importante é desenvolver esse tipo de medicamentos.

Nos últimos anos seis empresas farmacêuticas se instalaram no Brasil com o objetivo de produzir medicamentos biossimilares. Isto é muito promissor para aumentar a disponibilidade destes medicamentos de ponta a um menor custo, como pode também aumentar a pesquisa de novos medicamentos no país. Eu espero que para um futuro próximo nós possamos desenvolver pesquisas voltadas para os problemas de saúde específicos do Brasil, e este é mais um passo nessa direção.

Este final de semana eu vou participar de uma reunião estratégica para definir os próximos passos de desenvolvimento de um medicamento biossimilar ao Trastuzumab (nome comercial Herceptin), usado no tratamento do câncer de mama. Este medicamento praticamente dobra a chance de cura da doença quando usado depois da cirurgia. Vou dando notícias sobre o desenvolvimento dessa importante e promissora área de pesquisa para melhorar o tratamento do câncer no Brasil e outros países em situação semelhante à nossa.

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