Vinicius de Moraes dizia que a gente não faz amigos, a gente reconhece. Eu tenho que concordar, afinidade realmente não tem explicação.

O senhor Polska tinha 89 anos quando eu comecei a tratar dele. Nessa época ele já estava em fase avançada de demência, não entendia muita coisa do que acontecia ao redor e passava a maior parte do tempo dormindo. Quando ele acordava vinha instantaneamente um sorriso. Tudo sempre estava ótimo e agradecia a todos pela gentileza, “o senhor é muito gentil, eu gosto muito do senhor”, “o senhor é supimpa”. Ficou conhecido no hospital por ser o “Vô supimpa”.

Ele tinha vindo da Polônia, fugindo dos nazistas durante a segunda guerra mundial. Não era judeu, mas sofreu também perseguição e teve boa parte de seus bens e empreendimentos tomados. Chegando ao Brasil encontrou com a mulher que seria sua futura esposa. Ainda eram casados. Não sei bem quantos anos, mas estando ambos na casa dos 90 anos de idade imagino que mais de 50 anos juntos.

Meu amigo.

Meu amigo.

O sr. Polska tinha um linfoma que tinha sido tratado e estava em controle, não lhe trazia grandes complicações na vida. Durante uma internação identificamos um carcinoma de pele agressivo na cabeça. Eu não queria fazer quimioterapia para ele, estava muito velhinho e achamos que ele não aguentaria. Resolvemos fazer radioterapia com prótons. O tumor desapareceu em duas semanas, um resultado fantástico. Ele internava mais por conta da idade. Fez 90 anos no hospital, durante uma internação para tratar uma infecção. A festa foi grande no quarto e as fotos do parabéns circularam no whatsapp de todos que tratavam dele.

Às vezes, quando ele estava mais dormindo, eu ficava pouco tempo no quarto com ele. Às vezes conversava com a filha, que sempre o acompanhava. Falava para ela que ele era meu Vô, “tô de olho nele”. Quando ele estava mais acordado a gente conversava mais. Ele gostava do meu relógio, “muito bonito seu relógio, suíço?”, “o do senhor, também é muito bonito, de onde é?”.

Eu sou carioca, chamo todo mundo de “meu amigo”, não sei se é uma coisa do Rio de Janeiro ou se é uma coisa minha, nem percebo que faço isso. Um desses dias passei no fim da tarde para visitar o sr. Polka no hospital. Ele estava bem acordado e ficou contanto histórias da Polônia. A filha confirmava que o que ele dizia era verdade, que ele não estava se confundindo por causa da demência. O nosso cérebro é mais complexo do que a gente imagina, não sei de onde ele tirava todas aquelas memórias de 70 anos atrás e que nunca tinha falado antes. Às vezes falava em polonês e a filha traduzia.

Esse dia eu fiquei quase uma hora escutando as histórias. Quando estava indo embora ele pegou a minha mão e disse “o senhor não é mais meu médico”, respondi “mas por que seu Polska?”, “o senhor é meu amigo.”

A gente era amigo mesmo, ele tinha a idade do meu avô, mas mesmo com a diferença de duas gerações e a demência a gente tinha uma amizade. Viveu como poucos, 90 anos. Não é para qualquer um chegar nessa idade. Um dia dormiu e não acordou, teve uma passagem tranquila.

Ficaram as lembranças do vô supimpa, meu amigo.

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