Tem umas duas semanas eu fui ao Morumbi Shopping. Na hora que eu estacionei lembrei logo do Zé (esse não é o nome dele, estou inventando um nome agora). Esse sujeito foi uma das figuras mais interessantes que eu conheci na vida.

Não era uma pessoa fácil, mas a gente se deu muito bem. A diversão do sujeito era barbarizar os outros, ele dava risada de fazer isso. Tinha uns 70 e poucos anos, mas parecia uns 50. Tinha o jeito de um motoqueiro, desses americanos, barba branca comprida e careca. O pouco cabelo branco que tinha ele deixava crescer e amarrava num rabo de cavalo. Vinha lutando contra um câncer de pulmão por mais de dois anos. Nunca fumou na vida, mas aconteceu de ter um câncer de pulmão. Eu explicava para ele a maioria dos casos de câncer de pulmão era por causa do cigarro, mas nem todos. Uma em cada 10 pessoas com câncer de pulmão nunca fumaram, e nestes casos é mais comum encontrar alguma alteração no DNA como a mutação do EGFR, ou do ALK ou do ROS1.

Ele tinha um repertório de palavrões que eu poucas vezes tinha visto antes, sabia vários. Aprendi alguns com ele, mas não tenho coragem de usar, acho que só ele podia falar essas coisas. Quem não conhecia a figura ficava até meio com medo, mas ele fazia para se divertir mesmo. Como eu não ligava para isso, a gente sempre se deu bem. Ficamos bem amigos mesmo.

Tinha algumas coisas que realmente eu tinha que falar para ele maneirar. Por exemplo, quando ele chegava para fazer quimioterapia ele queria ficar nu. Isso mesmo, só fazia quimioterapia pelado. Falava que se sentia melhor fazendo quimio assim. “Beleza, pode fazer, mas fica coberto com o lençol e não sai por ai andando nu pelo hospital.” Não tinha jeito, era isso ou nada.

Ele internou algumas vezes, tinha vezes que eu ia passar visita médica e ele estava nu, fazendo tai chi chuan. “Pô Zé, coloca uma roupa aí para fazer tai chi no quarto do hospital”. Ele respondia com um palavrão e dava risada, era um cara fora de controle. Um sujeito louco, mas um bom coração.

Faz uns meses que ele se foi, uma pessoa que eu vou lembrar sempre. Na semana antes dele partir ele me disse, “chega de quimio, tô cansando. Outra coisa, você que gosta de comida japonesa, vai no Morumbi shopping, no restaurante do subsolo do lado da escada rolante, pede o temaki de ova. É bom pra c^&*&*^^&”. Eu falei “eu estou aqui para te ajudar, eu não trato de câncer, eu trato de gente.” Ele partiu quatro dias depois dessa conversa.

"Chega de quimio, vai no morumbi"

“Chega de quimio, vai no morumbi”

Cheguei no Morumbi shopping, fui no restaurante. Não tinha temaki de ova no cardápio, perguntei “não tem mais o temaki de ova? Não estou vendo aqui”, “tem mas não tá no cardápio, já acabou por hoje, amanhã já chega de novo.”

“Da próxima vez que eu vier eu passo aqui então.”

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