Todos já escutamos ou lemos em jornais sobre tratamentos milagrosos que foram testados em laboratório e foram capazes de curar tumores em todos os ratos em que foram testados, a mais recente delas e que vem causando muito polêmica é a fosfoetanolamina sintética (fosfoamina) (veja aqui uma matéria sobre essa substância). Realmente estas pesquisas acontecem e muitas das vezes elas realmente curam o câncer dos ratos. A pergunta que nos fazemos então é:

Onde estão todos esses medicamentos capazes de curar o câncer dos ratos?

Existem muitas respostas para essa pergunta. Uma parte destes medicamentos está sendo usada na prática da medicina diária. Já outra parte destas substâncias nunca chega a se tornar um medicamento útil no tratamento do câncer em seres humanos. Então ficamos com duas perguntas; (1) por que os medicamentos que curam os ratos não curam os seres humanos? E (2) por que alguns dos medicamentos que funcionam nos ratos não funcionam nos seres humanos?

Para responder a essas duas perguntas nós precisamos entender como funciona a pesquisa de novos medicamentos em testes com ratos, também conhecido como pesquisa in vivo. Existem basicamente dois modelos de pesquisa, o primeiro é o conhecido como xenograft, em inglês, ou implante de tumores humanos em ratos. Neste modelo os pesquisadores implantam um tumor de um paciente num rato para depois testar se medicamentos, dados aos ratos, conseguem reduzir o tamanho do tumor sem ser tóxico ao ponto de matar o rato.

 

A pesquisa de novos medicamentos contra o câncer passa por uma longa fase inicial de testes de laboratório. Nesta fase é testada a capacidade da substância matar células cancerígenas em tubos de ensaio e posteriormente de combater tumores humanos implantados em ratos. Muitas substâncias são testadas todos os anos mas muito poucas se mostram eficazes. Estima-se que apenas uma em cada 5000 se torne um medicamento. Se atualmente a medicina vem desenvolvendo de 5 a 10 novos medicamentos contra o câncer todos os anos nós podemos ter uma ideia da quantidade de estudos de laboratório em andamento.

A pesquisa de novos medicamentos contra o câncer passa por uma longa fase inicial de testes de laboratório. Nesta fase é testada a capacidade da substância matar células cancerígenas em tubos de ensaio e posteriormente de combater tumores humanos implantados em ratos.
Muitas substâncias são testadas todos os anos mas muito poucas se mostram eficazes. Estima-se que apenas uma em cada 5000 se torne um medicamento. Se atualmente a medicina vem desenvolvendo de 5 a 10 novos medicamentos contra o câncer todos os anos nós podemos ter uma ideia da quantidade de estudos de laboratório em andamento.

 

Este é um modelo de pesquisa em animais que permite avaliar a distribuição da substância no organismo do rato, sua concentração no tumor e em outros órgãos dos ratos assim como sua atividade em combater a doença. No entanto, este tipo de pesquisa tem limitações, a primeira, e talvez mais importante, é relacionada ao modelo em si. Os ratos têm que ser imuno deficientes para que o tumor de uma pessoa possa ser implantado, caso esses ratos tivessem a imunidade funcionando eles facilmente eliminariam o tumor humano. Visto que o tumor de uma pessoa é muito diferente das células do rato, o sistema imunológico do rato rapidamente destruiria o tumor de uma pessoa. No entanto, se o sistema imunológico do rato “aprende” a se defender do tumor humano ele rapidamente cura o rato da doença.

A segunda se refere ao metabolismo dos ratos, sendo animais com o metabolismo mais acelerado, os ratos aguentam uma dose de medicamentos muito mais alta que a dose que os seres humanos aguentam, logo mais medicamento pode ser dado ao rato, aumentando a chance de se eliminar o tumor. A terceira se refere à região onde o tumor é implantado, em geral embaixo da pele das costas do rato, por ser uma região onde é mais fácil medir a resposta ao tratamento. Os tumores se originam, e são cercados, por células similares a ele nos seres humanos. Por exemplo, os tumores do pâncreas se originam deste órgão e são cercados por células normais do pâncreas no ser humano, enquanto um tumor de pâncreas implantado nas costas de um rato é cercado por células da pele do rato, muito diferentes das células do pâncreas de um ser humano. Isto faz do tumor um alvo mais fácil de ser atingido pelo sistema imunológico. E quarto, o mais óbvio, um rato é muito diferente de um ser humano em todos os aspectos.

No segundo tipo de pesquisa com ratos de laboratório, uma mutação genética é colocada no embrião do rato, assim esse roedor já nasce com uma deficiência que vai causar um câncer no rato, quando ele se tornar adulto. Medicamentos são dados então a estes ratos com o intuito de curar essa doença. A vantagem deste tipo de pesquisa é que ela permite manter a imunidade dos ratos e não necessita que o tumor de uma pessoa seja implantado no rato. No entanto tem como desvantagem o tumor ser de origem do rato e não um tumor humano, além disso, o rato vai ter a mutação em todas as células do corpo, não apenas nas células do tumor. Em geral nos tumores humanos as mutações estão presentes apenas no tumor e não nas células saudáveis.

Entendendo um pouco estes modelos nós conseguimos perceber porque é muito mais fácil curar um rato com um tumor implantado de um ser humano do que um câncer em uma pessoa.

Então as pesquisas em com ratos de laboratório não servem para nada?

De maneira nenhuma, são pesquisas muito importantes para o desenvolvimento de novos medicamentos. Em primeiro lugar, pesquisas que falham em testes em laboratório muito provavelmente não se tornarão medicamentos em seres humanos. Porém devemos ter muito cuidado para dizer que resultados obtidos em ratos vão ser iguais em seres humanos. Pesquisas com seres humanos são necessárias para se responder várias perguntas:

Este medicamento que trata um rato em laboratório é seguro de ser feito em seres humanos?

O ser humano absorve pelo intestino e elimina pelo fígado ou rim esta substância da mesma maneira que o rato? Ela interage com outros medicamentos de uso habitual para hipertensão ou diabetes, por exemplo? E com outros medicamentos já usados no combate ao câncer?

A substância se concentra bem no local onde está o tumor ou em outras partes do corpo? Será que a substância é absorvida pelo intestino de uma pessoa ou excretada diretamente nas fezes sem entrar no corpo? O fígado elimina a substância logo após a absorção ou ela entra na corrente sanguínea? Será que essa substância se concentra em órgãos nobres, como o coração e cérebro, agindo mais como um veneno que como um medicamento?

Esta substância, nas doses que o ser humano aguenta tomar, é capaz de reduzir um tumor humano? Teria essa substância algum efeito ou seria ela completamente eliminada sem combater o tumor?

Esta substância é melhor do que os medicamentos que já dispomos hoje?

Em conclusão, as pesquisas com animais de laboratório são muito importantes. Sem elas não teríamos nenhum dos medicamentos que hoje estão disponíveis nas farmácias. No entanto estas pesquisas tendem a superestimar o efeito do tratamento. Quando se continua a pesquisa, muitos dos medicamentos são descartados por não fazerem o efeito desejado no ser humano ou serem menos efetivos do que em ratos. Logicamente os únicos estudos que aparecem nos jornais são aqueles que funcionam na fase inicial de pesquisa em laboratório, se depois a substância falhar em se tornar um medicamento não vai haver nenhum jornalista que vai se interessar em publicar essa notícia. Como costumam dizer, “um cachorro que morde um homem não vira notícia, mas um homem que morde um cachorro sim”.

É sempre bom ficar atento ao que está acontecendo nas pesquisas com animais, e mais ainda com os medicamentos que passam desta fase e começam a ser testados em seres humanos. Muito progresso foi feito até hoje utilizando estes modelos e podemos esperar muito mais nos próximos anos.

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