Fosfoetanolamina e a exploração do desespero

Amigos, este vai ser um texto diferente do que eu costumo escrever. Eu sempre tento ser ponderado e claro quando eu escrevo. Não há espaço para emoção quando se fala de ciência. Mas nesse texto serei um pouco mais pessoal.

Eu tinha jurado para mim mesmo que não escreveria mais sobre essa catástrofe que está acontecendo com a tal da fosfoetanolamina. Não escreveria por um simples motivo, me revolta. De verdade, me revolta muito isso, e por vários motivos.
O primeiro, acho um absurdo essa substância que só foi testada em ratos ter sido distribuída como medicamento contra o câncer. Isto não é só absurdo, isso é crime, dá 15 anos de cadeia distribuir falso medicamento. Se não for médico que distribua dá mais tempo de cadeia ainda, porque se comete o exercício ilegal da medicina. Isto foi feito dentro de uma universidade pública, sem o aval da mesma, e com dinheiro público. Dinheiro público gasto para botar a vida da população em risco e para se cometer um crime.

Segundo, eu criei a página para pessoas que procuram informações sobre o câncer, não foi para outros médicos ou pesquisadores. Escrevo com um linguajar simples para explicar e desmistificar o câncer e seus tratamentos. E cada vez que eu escrevo alguma coisa sobre isso vem uma multidão de pessoas me acusar de ganhar dinheiro com o sofrimento alheio, que eu prefiro fazer quimioterapia e ganhar dinheiro do que curar, e por ai vai. É sério isso? Quem escreve isso pelo menos se dá ao trabalho de ler e refletir sobre as informações que eu divulgo? Eu fiz 6 anos de faculdade, 4 de residência e 6 de mestrado e doutorado para tirar dinheiro de pessoas com câncer em estado terminal? Passei cinco anos no exterior longe da minha família e dos meus amigos, ganhando uma miséria de bolsa de estudo para voltar e tomar o dinheiro de pacientes com câncer? Eu devo ser a pior pessoa do mundo. E quem me acusa é justamente a pessoa que eu quero informar e, de um certa maneira, proteger dessa farsa que é a fosfoetanolamina.

Aliás, pensando em dinheiro, quem tem a patente dessa substância? Quem pode vendê-la e ganhar dinheiro com isso? E mais, por que a patente de uma substância desenvolvida dentro da universidade não pertence à própria universidade, como manda a lei, e sim aos pesquisadores? Quem vai ganhar dinheiro com isso?

Por outro lado pensei, deixa prá lá. Eu jurei Hipócrates, eu acredito nos princípios da não maleficência, “primeiro não fazer o mal”, e no princípio da beneficência. Hipócrates também faz a gente jurar a “autonomia”, cada um é autônomo sobre suas escolhas. Lamento que as escolhas das pessoas sejam feitas baseadas em informações incorretas e que usem do desespero para enganá-las, mas nada posso fazer além de informar. Faço consulta médica, não obrigação médica, quando alguém me procura a minha postura é “o que eu faria se eu estivesse na sua situação”, e ofereço tratamento. Mais do que isso, comprometimento. Não posso curar tudo, ninguém pode, mas me comprometo a estar ali para tudo que acontecer. Eu não trato de doenças, eu trato de pessoas. Pessoas nascem, crescem, vivem e morrem. Estou aqui para cuidar delas em todos esses momentos. Inclusive o momento da morte, que vai chegar para todos nós e tem que ser digno como todo o resto das nossas vidas.

Pois bem, hoje uma paciente está internada em estado grave, respira com a ajuda de aparelhos. Não tem câncer de fígado ou metástase, mas entrou em insuficiência hepática, o fígado está parando de funcionar. Estava tomando a tal da “fosfo”. Será que foi isso que causou? Será que não? A resposta é: não sei, não tenho a menor ideia, não sei a dose que tomou, não sei se é tóxico para o fígado, não sei como reverter esse efeito. Enfim, eu, como todo e qualquer médico hoje, não sabemos nada dessa substância. Se ela fosse um rato eu ligaria para o pessoal de São Carlos para que eles me ajudassem a tratar dela, porque eles aparentemente trataram de muitos ratos com melanoma. Mas ela não é um rato, e eles não têm a menor ideia de como essa substância funciona numa pessoa. Pelo quadro clínico atual é pouco provável que ela resista. Se a “fosfo” adiantou ou atrasou a sua partida eu não sei, nunca saberemos isso. O que eu sei é que ela poderia ter tido um final mais digno do que isso, e talvez vivido mais se tivesse usado medicamentos efetivamente comprovados.

Um outro paciente de um colega parou com os analgésicos, tem um câncer de estômago espalhado e começou a tomar essa tal de “fosfo”. Diz que não pode tomar remédios para aliviar a dor porque interferem com o tratamento. Que tratamento? Fosfoetanolamina não é tratamento. Esta passando seus dias com péssima qualidade de vida por conta desse boato.

Outra coisa que me revolta muito, a percepção que os pesquisadores passam de que eles descobriram algo fantástico, quando sabemos que esta substância tem baixo potencial. Fica parecendo que o mundo todo está parado sem fazer nada, enquanto só lá naquela “ilha de conhecimento” algo foi feito. Todos os anos são milhares de substâncias sendo testadas, milhares mesmo, mais de mil, todos os anos. Ano passado 7 novos medicamentos foram aprovados. Triplicamos o tempo de controle de câncer de mama luminal, pela primeira vez na história curamos alguns casos de melanoma metastático, descobrimos mutações em câncer de pulmão que podem ser tratadas com comprimidos e aumentam o tempo de controle. Tudo isso porque se evoluiu o conhecimento do câncer e medicamentos foram feitos pensando na doença e não apenas na molécula, como é o caso da fosfoetanolamina. Se você me pergunta se eu quero investir meu tempo em desenvolver isso, eu te digo não, essa não é uma molécula inovadora. Mas se alguém quiser, ótimo, que o faça, e faça direito. Não precisa ter muito conhecimento da biologia para saber que o potencial dessa substância é baixo, existem milhares de outras substâncias muito mais promissoras e que não vão a público neste momento porque seus pesquisadores são pessoas sérias e não vão na mídia fazer estardalhaço. Pessoas sérias não vão dizer que é complô da indústria, ou qualquer coisa, pessoas sérias vão se organizar e pesquisar seriamente.

O que eu acho conta? Não. O que o Dr. Gilberto acha conta? Não. O que você acha conta? Não. O que conta é a verdade, e a verdade nós só vamos saber se houverem pesquisas sérias, sem isso a resposta não existe. Não é medicamento até que se prove isso. E me desculpe, mas as explicações biológicas para o funcionamento da substância são loucas, não fazem o menor sentido. Se esses pesquisadores escrevem isso na prova do ENEM com certeza são reprovados em biologia. Na realidade não têm nem como saber se não fizeram estudos.

Em conclusão, quem está a favor de que a substância seja liberada? Dois pesquisadores detentores da patente, sendo que um é químico e o outro médico. Um fala que cura o outro fala que controla e dá esperança. Um fala para parar a quimioterapia e o outro para continuar.

Quem é contra o uso da substância até que se façam os estudos corretamente, protegendo os voluntários, seriamente, cientificamente, como manda a lei e como é feito em todos os outros países do mundo? Os outros pesquisadores de São Carlos que participaram da pesquisa do Prof Gilberto, o ministro da saúde, o reitor da USP, o diretor do instituto de química de São Carlos, o diretor da ANVISA, o diretor da Fiocruz, o diretor do Instituto do Câncer de São Paulo, Dr. Dráuzio, o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e todos os oncologistas que eu conheço.

Enquanto esse boato não parar e as pesquisas não forem feitas corretamente a gente vai ter que conviver com cada vez mais casos como o que eu me deparo hoje. Mesmo que eu não queria me revoltar com isso eu tenho que lidar com pessoas que foram vítimas do seu desespero e de um boato da internet.