É muito frequente lermos em jornais ou vermos reportagens na TV sobre novos medicamentos que foram testados em laboratório e que são anunciados como “a cura do câncer”. Estas são notícias muito perigosas porque não representam a realidade da pesquisa de novos medicamentos e geram muito estresse e ansiedade em pessoas que estão passando por um tratamento contra o câncer. Por vezes este tipo de notícia alimenta teorias da conspiração, como se houvessem governos ou grupos de pessoas que soubessem como “curar o câncer” e escondessem estes tratamentos para lucrar com a doença alheia.

Primeiro é importante conhecer um pouco sobre o câncer para entender como se pesquisa e desenvolve novos medicamentos. Câncer não é uma doença única, e sim um grupo muito variado de doenças, que tem como característica em comum a formação de tumores, ou nódulos. Mesmo na mesma pessoa o câncer pode ser muito diferente, já foi provado que o tumor vai mudando ao longo do tempo de tratamento. Não é incomum vermos numa mesma pessoa que um medicamento reduz alguns dos tumores enquanto outros crescem, é o que chamamos de heterogeneidade da doença.

Os tumores crescem através da multiplicação das células, uma que se divide em duas, que crescem e se dividem em quatro, que crescem e se dividem em oito, e por aí vai. A heterogeneidade acontece porque o DNA do tumor é muito instável e cada vez que as células se multiplicam para fazer o tumor crescer pode haver erros de divisão, assim as duas células resultantes acabam ficando diferentes entre si. Com o tempo elas vão formar dois grupos de tumores diferentes, que podem ter tanto comportamentos diferentes quanto podem ser sensíveis ou resistentes a tratamentos diferentes.

A imagem é exemplo da heterogeneidade das células em um câncer de ovário

A imagem é exemplo da heterogeneidade das células em um câncer de ovário

Se isso acontece dentro de um mesmo tumor numa mesma pessoa, imaginemos as diferenças entre um tumor na mama de uma mulher de 45 anos, um tumor na próstata de um homem de 65 anos (veja aqui uma matéria sobre rastreamento de câncer de próstata e tratamento do câncer de próstata)  e um tumor no pulmão de uma pessoa de 55 anos (veja uma matéria sobre rastreamento do câncer de pulmão). São doenças completamente diferentes. Logo os tratamentos para a doença dessas pessoas também será diferente. Este é um conhecimento muito importante para entender que não existe, nem nunca existirá, um tratamento que vá curar “todo e qualquer câncer” e sim tratamentos diferentes que serão capazes de curar doenças específicas.

Por exemplo, hoje é possível curar quase todos os homens com câncer de testículo do tipo seminoma com o tratamento com quimioterapia conhecido como BEP. Este tratamento funciona apenas para curar câncer de testículo do tipo seminoma, não é capaz de curar nenhuma outra doença. Câncer de mama do tipo luminal A pode ser curado com a combinação de tratamentos, cirurgia, radioterapia (em alguns casos), e hormonoterapia. Câncer de mama HER2 positivo pode ser curado com cirurgia, radioterapia (em alguns casos) e a combinação de quimioterapia e trastuzumab e hormonoterapia (em alguns casos, veja aqui uma matéria sobre novos medicamentos contra câncer de mama HER2 positivo). Veja aqui uma matéria sobre os vários tipos de câncer de mama. Em ambos os casos a chance de cura aumenta se a doença for detectada em estágio precoce com mamografia (veja uma matéria sobre as recomendações para mamografia). Assim como no caso do câncer de testículo, esses tratamentos só são capazes de curar câncer de mama, destes subtipos específicos. Se forem usados para outras doenças eles não funcionarão, porque os cânceres de outros órgãos são doenças completamente diferentes.

Câncer é uma doença heterogênea, a compreensão destas diferenças entre as doenças levou ao avanço do tratamento e aumento da chance de cura em muitas doenças. Hoje, com pesquisas que identificam as falhas no DNA de cada tipo de câncer já está sendo possível desenvolver medicamentos mais específicos para cada pessoa, melhores e com menos efeitos colaterais do que os medicamentos que usávamos antes.

Ainda há muito trabalho para ser feito para que se possa melhorar cada vez mais o tratamento contra o câncer, mas a cada nova descoberta nos aproximamos deste objetivo.

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