Por uma passagem tranquila

Talvez não exista um tema mais complexo, controverso e que gere mais dúvidas que o fim da vida. Apesar de todos nós sabermos que nossa passagem neste mundo é temporária, este é um tema que muitas vezes nós evitamos falar.

Este é um texto, um relato pessoal, de uma grande amiga e excelente profissional. Fico muito feliz de trabalhar na mesma equipe que ela.

Leiam o texto de Maria Aparecida Machado, enfermeira com especialidade em oncologia.

 

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Era uma paciente que eu recebia em várias internações curtas. Ela e o esposo, ambos na casa dos cinquenta anos, uma família de boa estrutura, ela odontologista, ele administrador de empresas, bem sucedidos profissionalmente. Faziam parte dessa nova formação familiar, ambos com filhos dos primeiros casamentos e, sempre que possível, estavam todos juntos.

Dessa vez não seria uma internação tão curta assim. Ela tinha um câncer de pulmão com metástase para a bexiga. A doença estava controlada e era cuidada por uma equipe médica fantástica. Eu a internei por crise convulsiva e, como suspeitávamos, foi confirmado uma metástase cerebral. Enquanto eu fazia a avaliação inicial de enfermagem, ouvia sua conversa como o esposo. Eles conversavam sobre o quanto negligente foram por não perceberem que o tumor estava se espalhando pelo cérebro, como se o fato da doença se espalhar fosse algo que estive sobre controle deles.

Desenvolvemos uma relação de muito afeto, onde ela me contava de como ela e o marido se conhecerem, o quanto se amavam, sobre a profissão dos filhos, o desejo da filha mais nova, que fazia medicina, em se tornar oncologista, e assim passavam os plantões. Nós cuidávamos das dores diárias e das crises convulsivas, que dias estavam controladas, dias não. Nos dias que ela estava mais desanimada, eu oferecia a ela consultar-se com nosso psicólogo e ela sempre recusava. Achava que ela iria tirar isso de letra. Sempre muito otimista e na companhia dos filhos e do esposo, que deixou o trabalho provisoriamente. Minha relação com ela e com a família era de muita confiança e profissionalismo.

Os dias se passaram e o quadro de dor ao urinar aumentou até que em um determinado momento ela parou de urinar. Ela foi então encaminhada para a medicina intervencionista para a desobstrução. Era o tumor que invadia a uretra. Retornou para o setor de internação com sonda vesical, mas devido ao sangramento a sonda entupia, obstruída por coágulos. Lavei essa sonda inúmeras vezes, o que causava muita dor. Isto tinha que ser repetido muitas vezes, ou a ela pararia de urinar novamente. A dor que ela sentia gerava muito sofrimento, era simplesmente incompatível com a vida. Mesmo recebendo medicamentos analgésicos em doses altas não se conseguia o controle da dor. Conversei com a equipe médica, sobre o sofrimento e quadro doloroso dela. Falamos sobre sedação para controle de dor, isto permitiria que ela ficasse dormindo e trataria a dor que ela sentia. Chegamos no quarto e a paciente optou por fazer este tratamento, ela sabia da gravidade da doença e da impossibilidade de reverter a progressão do câncer. Eu acompanhei de perto cada passo dessa decisão. A única coisa que ela queria era se despedir de cada um dos filhos. Eu combinei com ela que iria preparar a medicação enquanto os filhos chegavam e quando estivesse preparada que me chamasse. Assim o fiz, providenciei toda a sedação e fiquei aguardando o chamado dela. Enquanto isso, os filhos passavam pelo quarto e se despediam dela, em seguida me abraçavam chorando.

Quando ela me chamou, eu, de coração partido, fui atender. Era o pedido para dormir o mais rápido possível, não aguentava mais de dor e então expliquei a ela o procedimento. Então muito debilitada desenhou um coração no ar, levou a mão no peito e me disse: “obrigada por tudo, sem você teria sido mais difícil”… Eu a abracei e chorei, chorei muito e liguei o medicamento, algumas horas depois ela estava dormindo tranquilamente, sem nenhum sinal de dor. Ela foi para outro plano dois dias depois. Todos deveriam ter uma passagem assim. Confortável, cercada dos melhores cuidados, com família presente e sem dor.

Algum tempo depois, nessas voltas que a vida dá, me encontrei com a filha dela, que era psicóloga, em um treinamento. Ela relatou às pessoas presentes o quanto importante foi a minha participação na passagem da mãe dela. Essa semana fui abraçada pelo filho no corredor do hospital.

Essa paciente me ajudou a ser, e me tornar, especialista em oncologia. Depois disso decidi o tema da minha monografia: “O papel do enfermeiro perante terminalidade humana.” Ela esteve presente em todos os momentos.

Nem sempre se pode adiar a morte. Que se viva bem, até o dia da nossa morte. Quando este momento chega, diante de tantos desafios e de tanta luta, a bandeira da boa morte sempre será a que levantarei.

 

 

 

 

 

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