Em fevereiro de 2007 eu entrei para a residência de Oncologia Clínica no INCA (Instituto Nacional de Câncer), no Rio de Janeiro. Antes eu havia estudado medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tinha feito residência em Clínica Médica no Hospital do Exército. Este segundo, um pouco a contragosto, eu tinha sido aprovado no concurso e fui convocado para servir, apesar de nunca ter tido vocação para carreira militar.

Entrar como residente no INCA era o sonho de qualquer médico recém-formado que almejava ser oncologista. Na prática, se tornar oncologista é um processo difícil e por vezes doloroso. O residente, assim que entra, não tem experiência em lidar com pessoas com doenças graves, tampouco conhece os medicamentos e procedimentos para o tratamento do câncer, que são bastante específicos desta especialidade. Isto sem contar com a parte humana desse processo, saúde e doença se relacionam de forma muito intensa na oncologia e todos os dias continuamos aprendendo.

Logo no início eu não entendia direito porque usávamos este ou aquele medicamento para o tratamento de cada doença. Qual era a lógica para um sal de platina funcionar contra um câncer de pulmão e não funcionar para tratar câncer de mama? Porque usamos medicamentos tóxicos, que debilitam as pessoas e fazem cair o cabelo? Como descobrir o melhor medicamento para cada pessoa? Com o tempo eu percebi que não bastava saber todos os artigos científicos e diretrizes de tratamento para ser oncologista, era necessário entender como se pesquisava sobre o surgimento e progressão do câncer e como se desenvolviam novos medicamentos.

No fim do primeiro ano de residência a ideia de ir para o exterior para aprender sobre pesquisa em oncologia ficou mais forte, em especial pesquisa na Europa. Sem desmerecer os Estados Unidos, que são uma potência médica, eu também estava interessado em aprender como países tão diferentes, como os países europeus, colaboravam para fazer estudos internacionais. Pensava que talvez isso fosse importante para desenvolver pesquisa no Brasil, além de ter maior simpatia por morar na Europa do que nos Estados Unidos. Surgiu a oportunidade de ir para Paris, no Institut Gustave Roussy, um dos maiores centros de oncologia na Europa.

A negociação não foi muito fácil, era necessário acertar vários aspectos como validação de diploma, financiamento da bolsa de estudos, um orientador e projeto, além de toda a logística de desfazer minha vida aqui no Brasil e começar tudo de novo lá na França. Em 2009 finalmente tudo ficou acertado e fui para o grupo de pesquisa de melanoma. Na época meus colegas não acharam que seria interessante estudar essa doença porque não havia nenhum tratamento que funcionassem contra ela. Em 2010 os primeiros estudos com Ipilimumab e Vemurafenib mostraram, pela primeira vez, que era possível desenvolver medicamentos eficazes contra o melanoma. Eu tive a oportunidade e a sorte de trabalhar com esses medicamentos antes mesmo que eles tivessem nome. Foi como estar no lugar certo na hora certa. Hoje já são 7 medicamentos ativos e muitos mais por vir nesta mesma classe de remédios.

Eu em 2009 no Institut Gustave Roussy em Paris

Eu em 2009 no Institut Gustave Roussy em Paris

Quando terminei os estudos no laboratório de melanoma na França eu me mudei para Bruxelas na Bélgica, em 2011. Ia trabalhar com pesquisa clínica, sair do laboratório e entrar na pesquisa com pacientes. Fui fazer o doutorado no Institut Jules Bordet, grande centro de pesquisa em câncer de mama, liderado pela Dra. Martine Piccart, uma das maiores pesquisadoras desta área.

Foram anos intensos onde eu dividia meu tempo entre os estudos com anticorpos contra o câncer de mama e meu doutorado em saúde pública e políticas de saúde em oncologia. Fora as experiências pessoais, as pessoas incríveis e os lugares que conheci (mas isso eu vou deixar para falar num outro momento porque senão esse texto vai ficar imenso). Tive a oportunidade de trabalhar em grandes estudos que mudaram o modo como tratamos o câncer de mama como os estudos HERA, ALTTO, NeoALTTO, e APHINITY.

No começo de 2014 eu tinha coletado todos os dados do doutorado, as análises estavam em curso e comecei a escrever a tese e os artigos. Estava chegando a hora de voltar ao Brasil, já havia passado quase 5 anos longe de casa. Foi um período que escrevi muito, chegava no escritório do Breast European Adjvant Study Team, colocava meu fone de ouvido e escrevia praticamente o dia todo. Com intervalo no almoço para comer um sanduiche no Franks, perto do Parvis de Saint-Gilles.

Voltei ao Brasil no fim de 2014, havia apresentado e publicado (quase) todos os artigos e tinha terminado de escrever a tese. Enviei para a banca examinadora e aguardava a data da defesa de tese. Seriam duas, a primeira privada, apenas eu e a banca examinadora, a segunda aberta ao público, desde que eu tivesse passado na primeira etapa. Foram duas semanas em Fevereiro de 2015. Fui aprovado.

Eu com a Dra. Martine Piccart depois da defesa da tese.

Eu com a Dra. Martine Piccart depois da defesa da tese.

Eu e minha mãe na defesa de tese. Ela não bebe álcool, só pegou a taça para tirar a foto :)

Eu e minha mãe na defesa de tese. Ela não bebe álcool, só pegou a taça para tirar a foto :)

O diploma, no entanto, demorava a sair. Embora seja apenas um símbolo eu fiquei feliz de recebê-lo hoje. É só um pedaço de papel, mas simboliza todo um trabalho e uma experiência de vida de mais de 5 anos. Acho que também simboliza um elo entre o que eu fiz no passado, e o que eu estou fazendo (e quero fazer no futuro). Tento passar o que eu aprendi e continuar a pesquisar e aprender.

Achei que deveria compartilhar aqui, esse espaço, e as pessoas que participam dele fazem parte deste projeto.

Eis a prova:

diploma

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