Dengue, Zika e Chikungunya são doenças causadas por vírus. A infecção dos seres humanos acontece quando uma pessoa é picada por um mosquito infectado com alguma dessas doenças. Essas doenças podem se propagar de maneira explosiva pois um mesmo mosquito infectado pode picar várias pessoas. De maneira similar, uma pessoa doente que seja picada por um mosquito, transmite a doença para o inseto, fechando assim o ciclo de transmissão urbano (que ocorre nas cidades). Existe também o ciclo de transmissão na natureza, onde o vírus permanece circulando entre mosquitos selvagens e animais como os macacos. No caso da Zika existem estudos em andamento avaliando se também é possível que existam outras formas de transmissão pessoa-a-pessoa pela saliva ou pelo ato sexual.

Das três doenças, a mais conhecida é a Dengue, que já circula no meio urbano, pelo menos no Brasil, há mais tempo. Zika e Chikungunya são doenças mais recentes em nosso meio, e estamos em processo de pesquisa e aprendizado dos seus sintomas e melhores tratamentos.

Até o momento não existem estudos avaliando especificamente a infecção de pacientes com câncer por estas três doenças, logo todas as recomendações são baseadas em conhecimentos do tratamento da população em geral, que não tem nenhuma outra doença em atividade. Quando falamos nos tratamentos e dos riscos dessas doenças para os pacientes com câncer cabe o bom julgamento clínico dos dados que já temos, e o monitoramento de perto desses pacientes para evitar complicações ainda não conhecidas.

Aedes Aegypti, o mosquito transmissor da Dengue, da Zika e do Chikungunya.

Aedes Aegypti, o mosquito transmissor da Dengue, da Zika e do Chikungunya.

Qual delas seria a mais grave no paciente com câncer? Qual a orientação ao paciente ao perceber os primeiros sintomas? Como cada uma age no organismo, levando em consideração a vulnerabilidade desses pacientes?

Um dos problemas na prática e no tratamento desses pacientes é a diferenciação clínica entre as três doenças, que podem ter sintomas muito semelhantes ao diagnóstico. Podem existir pequenas diferenças que podem dar pistas de que doença se trata, mas na prática não existem exames capazes de diferenciar as três doenças no início dos sintomas. A maioria dos testes para o diagnóstico procura por anticorpos no sangue contra esses vírus, e o corpo só começa a produzir anticorpos alguns dias depois da infecção. Temos então que ser muito vigilantes nesses primeiros dias para evitar complicações mais sérias dessas doenças nos pacientes com câncer. Ao suspeitar dessas doenças o pacientes deve se comunicar imediatamente com o oncologista para saber como proceder.

Veja abaixo uma tabela com sintomas que podem dar pistas do diagnóstico (a intensidade do sintoma é sempre na média das pessoas e em comparação entre as doenças):

Característica Zika Dengue Chikungunya
Febre Média Alta Alta
Manchas na pele Muitas Poucas Média
Conjuntivite Presente Ausente Ausente
Dor na articulação Média Pouca Forte
Dor muscular Média Pouca Muito pouca
Dor de cabeça Pouca Média Média
Hemorragia Ausente Presente Ausente

 

Das três doenças, a mais perigosa para os pacientes em tratamento contra o câncer continua sendo a Dengue. O principal risco que deve ser controlado é o de sangramentos. Alguns dos tratamentos contra o câncer têm como efeito a redução das plaquetas, responsáveis pelo início do processo de formação dos coágulos. A infecção pelo vírus da dengue também é capaz de causar redução das plaquetas. Logo o paciente que esteja em tratamento com medicamentos que baixem as plaquetas, e que contraia dengue, pode estar com o risco elevado de ter problemas hemorrágicos. Estes pacientes devem ser acompanhados de perto com exames de sangue seriados para avaliar a contagem de plaquetas e a eficiência da coagulação.

Até o momento não existem relatos de problemas hemorrágicos relacionados ao Zika e ao Chikungunya, no entanto temos que lembrar que o diagnóstico entre as três doenças é difícil no início dos sintomas e que essas doenças são recentes no nosso meio, portanto devemos ser cautelosos. Ao menor sinal de manchas roxas na pele ou nas mucosas ou sangramentos na gengiva, sangramento urinário ou ao evacuar, esses pacientes deve ir a um pronto socorro o quanto antes.

Outros sintomas que podem ser piores nos pacientes em tratamento contra o câncer são as dores articulares e musculares. Alguns medicamentos usados em oncologia, como os taxanes e os inibidores de aromatase, são capazes de causar dores articulares e musculares, assim como as infecções por estes vírus. Portanto temos que ficar atentos para o controle deste sintoma em pacientes em tratamento para o câncer que contraiam estas viroses.

Caso o paciente contraia, qual é a forma de tratamento? É a mesma? Nesses casos, o tratamento oncológico é suspenso até a melhora do quadro do paciente?

Ainda não há uma diretriz ou estudo que indique a melhor forma de tratar os pacientes com câncer que contraiam Zika, Dengue ou Chikungunya. A minha particular recomendação seria que os pacientes sejam seguidos de perto com um tratamento ativo e atento para a dor e que se tenha muita atenção para os sintomas de sangramento.

Durante qualquer infecção não se recomenda que se continue o tratamento com quimioterapia. Aqui também vale esta recomendação, é mais seguro esperar a resolução da infecção para que se continue o tratamento do câncer. Para pessoas que estão em tratamentos hormonais ou com radioterapia não existe contraindicação à continuidade, desde que estes pacientes encontrem-se bem dispostos, ou seja, que a infecção esteja controlada ou que seja branda. Evidentemente cada caso é um caso e a melhor pessoa para orientar a interrupção ou continuação do tratamento é o médico oncologista responsável por cada paciente.

Muitos pacientes oncológicos são submetidos à transfusão de sangue, eles correm o risco de contrair uma dessas doenças? Qual a orientação a esses pacientes?

A questão do controle da transmissão destas viroses por transfusão sanguínea permanece aberta. Existe um controle nos bancos de sangue que visa evitar que pessoas que possam ter estado doentes nos dias a semanas anteriores doem sangue. Todos os voluntários para doação respondem a questionários sobre os sintomas como febre, dor e manchas no corpo. Se a pessoa tiver apresentado estes sintomas é requisitado que ela atrase em 4 semanas a doação, o tempo que demora para o corpo se livrar da infecção. Com a Zika, no entanto, existe o problema de haver infecção assintomática, algumas pessoas contraem a doença mas nunca fica doentes. Estas pessoas poderiam, teoricamente, doar sangue com vírus, que poderia causar doença na pessoa que receberá este sangue no futuro. Não se sabe, no entanto, se a carga de vírus destas pessoas é suficientemente alta para causar doença por transfusão sanguínea. Talvez estas pessoas não apresentem sintomas por ter menos vírus no sangue. Enquanto esta questão permanece aberta o mais prudente é que os bancos de sangue continuem a fazer um questionário detalhado de todos os doadores de sangue, incluindo perguntas sobre se existe surto de dengue, zika ou chikungunya no bairro de moradia e trabalho do doador, para selecionar melhor as pessoas que podem doar sangue.

Existe recomendação específica para os pacientes oncológicos referente a prevenção da dengue, chikungunya e zika?

Não existe recomendação específica para prevenção de Zika, Dengue e Chikungunya em pacientes com câncer. A recomendação de prevenção é a mesma que em pessoas sem nenhuma outra doença. Sempre se deve combater o mosquito transmissor, o Aedes Aegypti. Medidas como a colocação de telas nas janelas e uso de repelentes de insetos são fundamentais.

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