Este ano o congresso está particularmente muito bom. Foram várias palestras e apresentações de estudos com novos medicamentos, assim como novas maneiras de estudo dos tumores.  Eu achei muito bons os tópicos que discutiam as técnicas de estudos de tumores, que podem revolucionar tanto a escolha do melhor tratamento para cada pessoa, como o modo como desenvolvemos medicamentos, possivelmente fazendo com que as pesquisas sejam mais rápidas, eficientes e com menos falhas.

Sessão lotada de médicos e pesquisadores em oncologia no congresso da ASCO 2016

Sessão lotada de médicos e pesquisadores em oncologia no congresso da ASCO 2016

 

Na primeira sessão da manhã o estudo que mais se destacou foi o apresentado pelo Dr. Turtle (abstract 102), que avaliava o uso de CAR-T cells no tratamento de cânceres sanguíneos. Apesar destas não serem doenças que os oncologistas normalmente tratam (em geral são os hematologistas), decidi assistir a palestra porque o método de tratamento é revolucionário. Consiste em retirar células brancas do próprio paciente e, dentro do laboratório, introduzir alterações genéticas específicas e desenhadas pelos pesquisadores, através de vírus. Essas alterações introduzidas são como instruções para a célula de defesa achar o tumor e destruí-lo. Em seguida as células são alimentadas e multiplicadas em laboratório. Quando se consegue um bom número as células de defesa são reintroduzidas no sangue do mesmo paciente, como em uma transfusão. Os resultados são muito bons e extremamente promissores para um futuro próximo. Devem ter um papel importante no tratamento dos cânceres do sangue. Os estudos com cânceres sólidos ainda estão em fase inicial.

No início da tarde o ponto alto foi a discussão dos novos métodos de análise do DNA dos tumores no sangue, aprofundando a discussão feita ontem. Há tempos já se sabia que o tumor apresenta um crescimento desordenado e que nesse processo muitas células tumorais morrem, despejando o conteúdo das células no sangue. Hoje é possível detectar o DNA das células cancerígenas no sangue, o que abre uma série de possibilidades de tratamento, diagnóstico e exames para detectar o câncer quando ele ainda está pequeno e não é visível.

Numerosos estudos foram apresentados mostrando que as variações do DNA do tumor no sangue podem antecipar o que vai acontecer com o paciente. Por exemplo, em um estudo apresentado pelo Dr. Luis Diaz, da Johns Hopkins University, os pesquisadores avaliavam o DNA do tumor no sangue antes e depois da cirurgia. Em algumas pessoas o DNA desaparecia depois da cirurgia, já em outras ele apenas baixava de valor, mesmo sendo a doença totalmente retirada. Foi observado que quando o DNA tumoral desaparecia do sangue as pessoas ficavam curadas, enquanto que nas pessoas em que o DNA do tumor apenas baixava de valor sem desaparecer, a doença voltava depois de alguns meses. Isso prova que havia doença em outros lugares no momento da cirurgia, mas que estava muito pequena para ser detectada, só depois de alguns meses a doença crescia e podia ser vista pelos exames de imagem, como a tomografia e a ressonância. Talvez essas pessoas precisem de tratamento adicionais depois da cirurgia, como a quimioterapia.

Atualmente há um estudo em andamento na Inglaterra que mediu a quantidade de mutações de tumores em 500 mil pessoas saudáveis. A ideia do estudo é acompanhar as pessoas que apresentam estas mutações do DNA de tumor no sangue, para verificar se elas têm um risco aumentado de desenvolver câncer no futuro e tratá-las rapidamente se isso acontecer. Se isso for verdadeiro este seria um bom exame para detectar a doença precocemente, onde a chance de cura é maior.

Outro uso deste exame é a avaliação das modificações do tumor ao longo do tempo, caso novas mutações no DNA do tumor sejam descobertas no exame de sangue do paciente, isto pode significar que o tumor “aprendeu” como o medicamento funciona e pode voltar a crescer, assim pode ser necessária a troca dos medicamentos neste momento.

No fim da tarde foi apresentada a atualização do famoso estudo turco sobre cirurgia em câncer de mama, pelo Dr. Karanlik. Existe dúvida entre os médicos se operar mulheres com câncer de mama que tenham metástases melhora o controle da doença, ou se a cirurgia é desnecessária, e apenas o tratamento com medicamentos seria o suficiente. Isto porque a cirurgia não é capaz de curar o câncer de mama caso ele já tenha escapado para outros órgãos, como o osso, o fígado ou o pulmão.

Neste estudo metade das mulheres foi operada e seguiu o tratamento com quimioterapia e/ou hormônioterapia, e a outra metade não fez a cirurgia e foi tratada diretamente com quimioterapia e/ou hormonioterapia. O estudo sugere que, em mulheres que tenham tumores de crescimento mais lento, com receptores hormonais positivos, a cirurgia aumenta o tempo de controle. Isto ocorre possivelmente porque retirando o tumor por cirurgia, ficam menos células cancerígenas no corpo, e a chance destas células migrarem para outras partes do corpo diminui.

Este estudo foi contestado pelo estudo americano do TBCRC013, apresentado pela Dra. King. Neste estudo todas as mulheres que tinham metástases faziam quimioterapia antes, e metade fazia cirurgia da mama e a outra metade ficou apenas com medicamentos. Neste estudo, caso o primeiro tratamento funcionasse, não havia diferença fazer cirurgia ou não, em termos de controle da doença. A dúvida então persiste. Eu particularmente acho o estudo turco mais consistente e mais aplicável a vida real, vai mudar a prática de muitos médicos hoje.

Esses foram os pontos altos do segundo dia (na minha opinião J ). Amanhã volto com as novidades do terceiro dia!

 

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