Conheça toda a ciência e tecnologia médica que curou João de Deus do câncer.

O médium João Teixeira de Faria de 74 anos, conhecido como João de Deus, ficou mundialmente conhecido por realizar consultas mediúnicas e cirurgias espirituais para indicações mais diversas, incluindo doenças graves, como o câncer.

A reportagem recente de capa da revista Veja relata o trajeto de João de Deus durante o tratamento e cura de um câncer de estômago, no Hospital Sirio-Libanês, de São Paulo. Conheça os recursos tecnológicos, a ciência e os profissionais envolvidos no tratamento moderno deste tipo de câncer.

O texto discute de modo genérico os métodos e a ciência utilizados para se tratar um câncer de estômago. Para facilitar a compreensão, este texto é divido em três partes do tratamento do câncer: diagnóstico, estadiamento e tratamento.

  1. Tecnologias aplicadas ao diagnóstico do câncer de estômago.

Não existe até o momento um método diagnóstico comprovadamente eficaz para detectar o câncer de estômago quando ele não causa sintomas. Em geral a doença é descoberta quando a pessoa sente algo diferente, como dor no estômago, dificuldade para alimentar-se ou anemia. Quando estes sintomas ocorrem é necessária uma consulta médica, visto que esses sintomas são muito vagos e podem ter várias causas.

Em geral o médico gastroenterologista, ou clínico geral, são os primeiros a ser consultados. Estes profissionais têm uma formação longa, entre a faculdade e especialização são necessários em torno de 9 a 11 anos. Caso estes profissionais suspeitem da doença o melhor exame para investigar a causa é a endoscopia digestiva alta.

Imagem que mostra o procedimento de endoscopia digestiva alta.

Imagem que mostra o procedimento de endoscopia digestiva alta.

A endoscopia é um procedimento não invasivo, realizado através do aparelho conhecido como endoscópio. Este aparelho consiste de uma haste flexível, com uma câmera em sua ponta (veja a imagem abaixo). Esta câmera é introduzida pela boca, descendo até o estômago, isto permite ao médico observar todo o trajeto do esôfago e do estômago por dentro. Caso o médico ache algo de diferente o aparelho permite a realização de biópsias, que é a retirada de pequenos pedaços da área suspeita, para serem enviados ao laboratório de patologia para análise. Os endoscópios mais modernos permitem o acoplamento de um aparelho de ultrassonografia em sua ponta, isto permite a avaliação dos órgãos próximos ao estômago de dentro para fora. Caso o médico identifique gânglios de defesa suspeitos ele pode também realizar biópsias através deste aparelho.

O endoscópio flexível, aparelho para a realização da endoscopia.

O endoscópio flexível, aparelho para a realização da endoscopia.

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Imagem real de endoscopia mostrando o momento em que é retirado um fragmento de tumor de dentro do estômago.

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Detalhe da ponta do aparelho usado para retirar um fragmento do tumor.

Apesar deste ser um exame de baixo risco de complicações é necessário que se usem medicamentos para torná-lo menos desconfortável. O estudo da anatomia humana identificou áreas no fundo da boca e início do esôfago que deflagram o reflexo de vômito. O estudo deste reflexo identificou o seu mecanismo, sendo posteriormente desenvolvidos medicamentos que interferem com o canal de sódio das células humanas. Estes medicamentos são aplicados em spray e impedem esse desconforto durante o exame. Além da sedação do reflexo de vômito, o uso de sedativos leves pode ser útil. Por vezes o exame é feito com a pessoa dormindo sem que ela nem se lembre que fez o exame quando acorda.

Estudo da fisiologia e anatomia do reflexo do vômito.

Estudo da fisiologia e anatomia do reflexo do vômito.

O fragmento de tecido retirado por este exame é enviado ao laboratório de patologia. Este é um local de alta tecnologia dentro do hospital, e pronto para a realização de diagnósticos e análises complexas. Quando o material de biópsia chega ao laboratório ele é processado e cortado em lâminas extremamente finas, posteriormente ele é corado com pigmentos especiais e analisados no microscópio pelo médico patologista.

Laboratório de patologia.

Laboratório de patologia.

As colorações para identificar partes específicas das células foram desenvolvidas tendo em vistas estudos que identificaram diferenças físico-químicas nas estruturas celulares. Cada corante foi desenvolvido para ter maior afinidade por partes específicas das células. Assim o médico patologista, que tem também um longo treinamento (9 a 12 anos), consegue identificar e diferenciar as células ao microscópio, identificando a presença de células cancerígenas e seus diferente tipos.

Imagem real de um câncer gástrico visualizado ao microscópio.

Imagem real de um câncer gástrico visualizado ao microscópio.

Caso o diagnóstico seja difícil, o médico patologista pode lançar mão de técnicas imunológicas, que usam anticorpos para identificar substâncias específicas das células cancerígenas. Esta técnica altamente sofisticada, foi desenvolvida através do conhecimento da imunologia e do funcionamento dos anticorpos, muitos deles criados em animais, como roedores ou coelhos, e aplicados no laboratório para marcar células humanas. O patologista também consegue identificar a presença de alterações dos diferentes tipos de câncer, que podem ajudar na escolha dos tratamentos, como medicamentos alvos, que agem diretamente contra essas alterações.

Imagens reais de câncer gástricos corados por imunohistoquímica podem ajudar o patologista a chegar ao diagnóstico final de câncer.

Imagens reais de cânceres gástricos corados por imunohistoquímica podem ajudar o patologista a chegar ao diagnóstico final de câncer.

 

  1. Tecnologias aplicadas ao estadiamento do câncer.

Depois de feito o diagnóstico de câncer através da biópsia de um pequeno fragmento da pele do estômago, o próximo passo é quantificar quanta doença existe no corpo da pessoa. Este processo é conhecido como estadiamento. Existe um método para avaliar a quantidade de doença que foi originado da observação cuidadosa e sistemática dos pacientes com câncer, conhecido como TNM. O conhecimento detalhado e preciso da anatomia humana, acumulado ao longo de anos, desde a época do Renascimento, na Europa, permitiu a compreensão deste processo (veja abaixo alguns dos primeiros desenhos da anatomia humana, feitos por Leonardo da Vinci).

Estudo da anatomia do coração feito por Leonardo da Vinci no século 15.

Estudo da anatomia do coração feito por Leonardo da Vinci no século 15.

Estudo da anatomia humana por Leonardo da Vinci.

Estudo da anatomia humana por Leonardo da Vinci.

 

A medida que o tumor vai crescendo, ele se utiliza os caminhos naturais do corpo para sua disseminação, portanto é extremamente importante conhecer o tamanho do tumor, a letra T do TNM. Os vasos linfáticos, por onde caminham as células de defesa, são habitualmente o primeiro local de metástases, o primeiro local para onde o câncer se espalha. Logo, os médicos, ao longo dos anos, observaram que quanto maior o tumor inicial, e quanto mais profundo ele invade a parede do estômago, mais comum é observarmos a presença de metástases nos linfonodos, os gânglios de defesa do corpo, popularmente conhecidos como ínguas. Esta é a letra N do TNM. Da mesma maneira, quanto mais profundo e quanto mais gânglios de defesa comprometidos por câncer, maior a chance das metástases aparecem em outros órgãos. Esta é a letra M do TNM. Isto acontece porque o câncer também consegue crescer para o interior dos vasos sanguíneos, e se espalhar viajando pelo sangue. Aqui, mais uma vez, o conhecimento da anatomia humana é fundamental. Todo o sangue que sai do estômago passa pelo fígado, logo é muito importante olhar este órgão com cuidado para avaliar se há doença lá também.

Representação dos vasos sanguíneos do estômago.

Representação dos vasos sanguíneos do estômago.

Existem alguns métodos para avaliar a presença de câncer em outros locais, fora do estômago. Normalmente utilizamos as máquinas de tomografia computadorizada, desenvolvidas a partir da década de 1950. Estes são aparelhos de alta tecnologia que formam imagens como se nós cortássemos o corpo humano em várias fatias finíssimas, e olhássemos o corpo por dentro. Dezenas a centenas de imagens são feitas de maneira que possamos olhar com detalhes todos os órgãos. Este exame forma imagens através de raios X, descobertos no ano de 1885 pelo físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen. A radiação X é absorvida de maneira diferente pelos diferentes órgãos do corpo, e um sensor consegue detectar estas diferenças, formando as imagens (veja alguns usos abaixo). Tantos os exames de radiografia habituais, como a tomografia, utilizam este tipo de radiação para formar as imagens.

Tomógrafo computadorizado.

Tomógrafo computadorizado.

Exame de tomografia computadorizada do tórax permite a formação de imagens dos órgão internos do corpo.

Exame de tomografia computadorizada do tórax permite a formação de imagens dos órgão internos do corpo. Em amarelo nota-se a presença de um câncer de pulmão neste paciente.

Radiografia de tórax. Método que forma imagens do corpo através de raios X.

Radiografia de tórax. Método que forma imagens do corpo através de raios X.

Outro exame que pode ajudar no estadiamento é a ressonância magnética, inventada em 1971 por Paul C. Lauterbur. De maneira semelhante a tomografia este exame forma imagens como se tivéssemos cortando o corpo humano. Mas não utiliza radiação X e sim ondas sonoras. A atenuação da velocidade do som é percebida pelo aparelho que forma as imagens, veja abaixo alguns exemplos. São aparelhos altamente tecnológicos e de alto custo de aquisição, os exames também são dispendiosos em termos de gasto de energia elétrica, porém extremamente úteis em casos bem selecionados.

Máquina de ressonância magnética.

Máquina de ressonância magnética.

Imagem do crânio produzida pela ressonância magnética.

Imagem do crânio produzida pela ressonância magnética.

Mais recentemente dispomos dos aparelhos de PET (tomografia por emissão de pósitron). Para o desenvolvimento deste exame foi necessário o conhecimento detalhado, não só da tecnologia de formação de imagens do corpo humano, mas sobre o metabolismo dos tumores, e do desenvolvimento de radiotraçadores radioativos. Estudos acumulados da biologia do câncer demonstram que a atividade metabólica do tumor é aumentada, o câncer consome mais nutrientes que o restante das células normais do corpo. O princípio do exame é detectar, por imagem, as áreas do corpo que consomem mais nutrientes, no caso do PET, os tecidos do corpo que consomem mais açúcar. Neste exame o paciente recebe uma aplicação de glicose acoplada a uma substância radioativa “colada” nela, conhecido como FDG. Quando esta glicose é consumida pelos tecidos a substância radioativa é liberada e a máquina do PET identifica o local de consumo da glicose. Quanto mais glicose é consumida maior é a intensidade da imagem produzida, isto se correlaciona com a presença de câncer naquele local (veja alguns exemplos de exame abaixo).

Imagem de PET mostra um tumor gástrico (setas). Nota-se cor amarela mais intensa o que significa maior consumo de nutrientes. O cérebro consome muitos nutrientes e também fica amarelo ao exame. Como o contraste sai pela urina a bexiga também fica repleta de contraste e amarela neste exame.

Imagem de PET mostra um tumor gástrico (setas). Nota-se cor amarela mais intensa o que significa maior consumo de nutrientes. O cérebro consome muitos nutrientes e também fica amarelo ao exame. Como o contraste sai pela urina a bexiga também fica repleta de contraste e amarela neste exame.

Este exame pode identificar a presença de metástases mais precocemente que por outros exames, além de poder guiar os médicos para os locais a serem biopsiados e ajudar na programação da futura cirurgia.

 

  1. Tecnologias médicas aplicadas ao tratamento do câncer gástrico.

Hoje existem diversas modalidades de tratamento que podem ser aplicadas no tratamento do câncer de estômago. Dependendo do caso pode-se lançar mão da cirurgia, da radioterapia, da quimioterapia e da terapia com drogas-alvo.

O pilar fundamental do tratamento é a cirurgia conhecida como gastrectomia. O uso da cirurgia para o tratamento do câncer só pôde se iniciar depois do estudo detalhado dos receptores do sistema nervoso central e das interações entre suas células. Isto porque é necessário que o paciente esteja anestesiado durante o procedimento e realizar uma anestesia geral com segurança não é um procedimento simples. As primeiras anestesias gerais bem-sucedidas ocorreram na década de 1840, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Primeiro foi utilizado o éter como anestésico inalatório e posteriormente o óxido nítrico, este usado até os dias de hoje. Só após este avanço tecnológico foi possível o desenvolvimento de todas as cirurgias que temos nos dias de hoje.

Anestesista controla aparelhos de suporte de vida durante a cirurgia.

Anestesista controla aparelhos de suporte de vida durante a cirurgia.

Outro aspecto fundamental para a realização da cirurgia é o conhecimento sobre as bactérias e antibióticos. As bactérias foram observadas pela primeira vez em 1676, em microscópios rudimentares, pelo holandês Antonie van Leeuwenhoek. Quase 200 anos depois, em 1859, o pesquisador francês Louis Pasteur e o médico alemão Robert Koch identificaram o papel das bactérias no desenvolvimento das doenças. Apenas em 1929, médico escocês Alexander Fleming identifica e purifica os primeiros antibióticos, as penicilinas. Esta descoberta científica muda a história da medicina e da humanidade, aumentando dramaticamente a expectativa de vida, o tratamento das doenças infecciosas e, no caso da cirurgia, a segurança do procedimento que começou a ser realizada com muito mais segurança e com baixíssimo risco de infecção pós-operatória.

Alexandre Fleming, o cientista que descobriu a Penicilina, antibiótico usado até os dias de hoje.

Alexander Fleming, o cientista que descobriu a Penicilina, antibiótico usado até os dias de hoje.

Antes da cirurgia o paciente é examinado cuidadosamente e exames de sangue são realizados para avaliar a qualidade e quantidade de substâncias necessárias para a coagulação. A compreensão do processo de formação do trombo de plaquetas e das cadeias de coagulação é essencial para que se realize uma cirurgia com segurança. Além disso o conhecimento da imunologia do corpo humano é necessária. Em cirurgias grandes pode haver perda de sangue e necessidade de transfusão sanguínea. Para ser feita a transfusão é necessário saber qual é o tipo sanguíneo da pessoa, e selecionar sangue de doadores que tenham um tipo semelhante, caso contrário o corpo do paciente identifica o sangue como um agente invasor, como uma bactéria por exemplo, e destrói todo o sangue transfundido. Isto pode levar a uma séria reação inflamatória que pode até causar a morte do paciente.

Durante a cirurgia o cirurgião oncológico, um médico com treinamento de até 15 anos, avalia as condições operatórias e decide o tipo de cirurgia a ser feita. É preciso um detalhado conhecimento da anatomia humana, o cirurgião tem que retirar o tumor sem lesar estruturas importantes como vasos sanguíneos e nervos. A cirurgia deve ser grande o suficiente para retirar toda a doença sem que a função digestiva da pessoa fique comprometida. O cirurgião retira todo o estômago do paciente fazendo uma reconstrução do caminho do intestino com suturas que permitem a continuidade da passagem dos alimentos, do fluxo de enzimas digestivas do pâncreas e de bile, vinda do fígado.

Ato cirúrgico.

Ato cirúrgico.

Esquemas das possíveis reconstruções do intestino após a retirada do tumor.

Esquemas das possíveis reconstruções do intestino após a retirada do tumor.

Na mesma cirurgia o cirurgião retira diversos gânglios linfáticos (veja a figura abaixo). Sabendo que o tumor se espalha usando os vasos linfáticos, por onde andam as células de defesa, é importante a retirada desses gânglios, porque pode haver doença nestes locais. Diversos estudos de cirurgia já foram feitos observando a importância da retirada desses linfonodos, sendo muito importante a contribuição científica recente dos médicos japoneses, grandes especialistas em cirurgias para câncer de estômago.

Anatomia dos gânglios de defesa do estômago, que também devem ser retirados no mesmo procedimento.

Anatomia dos gânglios de defesa do estômago, que também devem ser retirados no mesmo procedimento.

É habitual que após uma cirurgia de grande porte o paciente precise ser tratado em centros de tratamento intensivo. Como a cirurgia é um procedimento agressivo podem ser necessários o uso de máquinas para ajudar o paciente a respirar, medicamentos para manter os níveis de pressão arterial, ou transfusão de sangue e infusão de líquidos nas veias.

Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Todos os pacientes que fazem grandes cirurgia devem ser tratados por alguns dias nestas unidades.

Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Todos os pacientes que fazem grandes cirurgias devem ser tratados por alguns dias nestas unidades.

Depois de retirado o tumor e os linfonodos todo esse material volta para o laboratório de patologia, onde o médico patologista vai estudar o tumor por completo. Depois de alguns dias de trabalho o patologista é capaz de identificar todos os detalhes, como o tamanho do tumor, a profundidade dentro da parede do intestino, como estavam os gânglios linfáticos. Isto dá um panorama preciso do tamanho da doença para que se possa programar os próximos passos do tratamento.

A ideia de adicionar tratamentos depois da retirada completa do tumor parece simples nos dias de hoje, mas nem sempre foi assim. Este é o tratamento conhecido como quimioterapia adjuvante. Demonstrar que este tratamento funciona é uma tarefa difícil. Pense, quando dizemos que o tratamento com quimioterapia depois da cirurgia funcionou isto significa dizer que a doença não retornou. Como nós sabemos se a doença não retornou porque foi totalmente retirada pelo cirurgião ou se foi por conta do tratamento com quimioterapia, que eliminou células cancerígenas que possam ter sobrado da cirurgia?

Quimioterapia. Hoje dispomos de centenas de medicamentos que devem ser utilizados criteriosamente. Cada doença é tratada com um tipo de medicação de acordo com as alterações moleculares de cada tumor.

Quimioterapia. Hoje dispomos de centenas de medicamentos que devem ser utilizados criteriosamente. Cada doença é tratada com um tipo de medicação de acordo com as alterações moleculares de cada tumor.

Para saber ao certo é necessário que se façam estudos clínicos, que se tenha noção de estatística médica, e que haja colaboração entre diversos hospitais para a realização destes estudos. Esta história começa na década de 1970 na Itália, com o oncologista Gianni Bonadona, e nos Estados Unidos, com o oncologista Bernard Fisher. Estes médicos fizeram estudos simultaneamente, em pacientes com câncer de mama. Naquela época não se sabia se a quimioterapia iria melhorar o tratamento. Os estudos então dividiam as mulheres que eram operadas por câncer de mama em dois grupos. O primeiro grupo era apenas observado, não recebia nenhum tratamento depois da cirurgia. O segundo grupo recebia quimioterapia. As pacientes foram seguidas ao longo do tempo e foi observado que no grupo de mulheres que recebia quimioterapia a doença retornava menos. Isto demonstrou que o tratamento com quimioterapia aumenta a chance de cura do câncer. Veja aqui uma matéria completa sobre a descoberta da quimioterapia.

No caso de João de Deus, o tumor foi avaliado como tendo alto risco de retorno, logo, o tratamento com quimioterapia foi recomendado. Dois medicamentos foram utilizados, a cisplatina e a capecitabina. Estes são medicamentos quimioterápicos clássicos, eles agem danificando o DNA das células. Este dano é particularmente importante em células que crescem rapidamente, como as células do câncer. A descoberta da estrutura do DNA data de 1953 e foi feita pelo americano James Watson e o inglês Francis Crick, descoberta que lhes rendeu o prêmio Nobel. O conhecimento do DNA permitiu o avanço de diversas áreas da medicina e da ciência, como o melhor conhecimento das causas das doenças e a melhora do desenvolvimento de medicamentos, em particular os medicamentos contra o câncer.

Watson e Crick, pesquisadores que descobriram a estrutura do DNA.

Watson e Crick, pesquisadores que descobriram a estrutura do DNA.

Os medicamentos usados no tratamento adjuvante do câncer gástrico têm bastante efeitos colaterais, pois atacam células normais do corpo que se replicam rapidamente. Principalmente enjoos, queda das células sanguíneas e cansaço. É necessário por vezes transfusões de sangue e plaquetas, além do uso de medicamentos modernos para a sedação de enjoo e vômitos. Com o uso de medicamentos como o aprepitant e dos “zentrons” o tratamento é em geral muito bem tolerado.

Mesmo quando todo o tratamento é bem-sucedido existe a chance de retorno da doença. Nenhum tratamento médico tem 100% de eficácia, mas eles podem reduzir de maneira importante o risco de retorno da doença. Por isso é importante que o paciente siga sendo acompanhado periodicamente com exames clínicos, laboratoriais e de imagem, com o objetivo de detectar precocemente caso haja o retorno da doença e que intervenções médicas possam ser feitas a tempo de controlar a doença.

 

Conclusão

O tratamento bem-sucedido do câncer de João de Deus foi possível através da ciência, do intelecto, do trabalho e da inventividade do ser humano. Foram necessários muitos anos de estudos sérios e acumulados, contribuições de pesquisadores ao longo da história, vindos das mais diversas partes do mundo. Foi necessária a intervenção médica de uma equipe altamente treinada e competente, que dispunha dos recursos tecnológicos e médicos mais avançados, capaz de colocar o melhor da medicina moderna em favor da cura desta doença gravíssima.

Obviamente um tratamento desta complexidade é altamente dispendioso e, infelizmente, disponível apenas para poucas pessoas, que possuem muitos recursos financeiros. O desafio da nossa sociedade é fazer com que esta tecnologia possa estar ao alcance de todos independentemente do nível social ou renda.

Em conclusão, a cura de João de Deus é uma vitória da ciência e da humanidade.

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