Câncer de mama HER2 positivo. Entendendo melhor essa doença.

Desde a década de 1970 fomos compreendendo que o câncer não é uma doença única e sim várias doenças diferentes. Essas doenças têm características distintas, graus de crescimento diversos e respondem a tratamentos diferentes (veja aqui uma matéria sobre os diferentes tipos de câncer). (leia aqui sobre os carcinomas ductais e lobulares). (leia aqui uma matéria sobre doenças invasivas e in situ).

Um dos principais exemplos é o câncer de mama. Já nos final dos anos 1800 o cirurgião Thomas Beatson percebeu, em experiências com coelhas, que a retirada dos ovários fazia os tumores da mama destes animais reduzirem. Mais tarde, na década de 1970, o médico Elwoon Jensen descobriu os receptores hormonais nas células cancerígenas, permitindo o desenvolvimento de diversos medicamentos que agem bloqueando a ação dos receptores, como o tamoxifeno, o anastrozol, o letrozol, o exemestano e o fulvestranto. (leia mais aqui)

Foi visto também que, das mulheres que tinham o diagnóstico de câncer de mama, em torno de 80% apresentavam o receptor de estrógeno, alvo dos medicamentos. Portanto, o medicamento é dado apenas para elas. Nas demais mulheres, como não há o alvo do medicamento, este tratamento não tem efeito.

Na década de 1980, pesquisadores descobriram outra substância importante nas células do câncer de mama, o receptor HER2. O HER2 é uma espécie de “antena parabólica”, que fica na superfície das células e percebe sinais de crescimento.

O HER2 tem a função de estimular o crescimento quando existe uma lesão nas células normais. Por exemplo, quando há um corte na pele, as células danificadas liberam fatores de crescimento que são capturados pelos receptores HER2 das células próximas. Desta maneira estas células próximas à lesão começam a se reproduzir para cobrir a área que foi cortada, e assim cicatrizar o corte. Trata-se de um mecanismo normal de regeneração da pele.

Em alguns casos de câncer de mama (em torno 1 a 2 mulheres a cada 10), as células cancerígenas apresentam milhões destes receptores de HER2 na superfície, um número muito maior do que o as células normais. Isto faz com que a célula cancerígena tenha um grande estímulo para crescer. No passado isto era um fator ruim, e estas pessoas viviam menos do que as pessoas que não tinham o HER2 nos tumores da mama.

Esta imagem é uma representação de uma célula normal (a esquerda), com poucos receptores HER2; e uma célula com a hiperexpressão do HER2 (a direita). As células do câncer de mama que têm a hiperexpressão chegam a ter em torno de 2 milhões de receptores por célula.

 

Sabendo disso, foram desenvolvidos diversos medicamentos que agem atacando este receptor. O primeiro deles foi o Trastuzumab (nome comercial Herceptin), aprovado para tratamento do câncer de mama HER2 positivo desde 1998. Desde então vários outros medicamentos contra o HER2 foram desenvolvidos como o Pertuzumab (nome comercial Perjeta), o Lapatinib (nome comercial Tykerb) e o TDM1 (nome comercial Kadcyla). Leia mais aqui sobre estes medicamentos.

Alguns destes medicamentos, como o trastuzumab e o pertuzumab, são anticorpos criados em laboratório. Além de bloquearem o crescimento das células cancerígenas, eles se ligam às células pelo lado de fora, colocando uma espécie de “bandeira”, que sinaliza para o sistema imunológico onde o tumor se encontra. Isto torna mais fácil a sua destruição pelo sistema imunológico.

Esta imagem mostra a membrana da célula (linha amarela). A parte de cima da imagem é a parte de fora da célula, enquanto a parte de baixo seu interior. Em azul está representado o receptor HER2. Em vermelho e verde vemos os medicamentos trastuzumab e pertuzumab se ligando ao receptor. Esta ligação causa seu desligamento e sinaliza a localização do câncer para o sistema imunológico.

 

Os medicamentos contra o HER2 podem ser utilizados depois da cirurgia, com o intuito de aumentar a chance de cura. Podem ser feitos para doença metastática, aumentando o tempo de controle da doença. E podem também ser feitos antes da cirurgia, com o intuito de reduzir a doença e tornar a cirurgia mais fácil. Por vezes os tumores desaparecem depois do tratamento (leia mais aqui sobre isso).

Conforme estudamos mais sobre as doenças e seus mecanismos de desenvolvimento, podemos entender melhor quais são suas fraquezas, o que permite o desenvolvimento de medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais.

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