Nos últimos anos a oncologia tem passado por uma revolução de novos tratamentos. Estes avanços nos tratamentos ocorreram principalmente pelo aumento do conhecimento da biologia da doença. Conforme entendemos mais dos mecanismos de crescimento e surgimento do câncer, identificamos mais pontos fracos na doença que podem se tornar alvos de tratamentos.

Hoje eu dividiria esses grandes avanços em duas frentes diferentes de tratamento. O primeiro grupo é o de medicamentos-alvo, que agem especificamente em defeitos dos tumores (leia mais aqui sobre mutações em câncer de pulmão, sobre como detectar as mutações, câncer de mama HER2 positivo, biópsia líquida).

Alguns dos exemplos mais importantes de tratamentos usando esta estratégia são:

Crizotinib em câncer de pulmão com translocação do ALK (leia mais),

Alectinib em câncer de pulmão com translocação do ALK (vídeo),

Osimertinib em câncer de pulmão com mutação do EGFR (leia mais),

Olaparib em câncer de ovário com mutação de PARP (leia mais),

Olaparib em câncer de mama triplo negativo com mutação de BRCA (vídeo),

Niraparib em câncer de ovário com mutação do BRCA (leia mais),

Vemurafenib + cobimetinib e dabrafenib + trametinib em melanoma com mutação BRAF (leia mais).

Medicamentos contra o receptor HER2 do câncer de mama (leia mais aqui).

A medicina de precisão busca identificar caraterísticas únicas de cada pessoa e escolher o medicamento correto para a pessoa certa, a cada momento do tratamento.

A segunda estratégia que tem se mostrado extremamente promissora e com excelentes resultados é a imunoterapia. A ideia por trás deste tratamento é estimular a imunidade para que o nosso próprio sistema imunológico reconheça a doença e combata o câncer. Estes medicamentos têm sido úteis e diversos tipos de cânceres. Alguns exemplos são:

Melanoma da pele, nivolumab, pembrolizumab e ipilimumab (leia mais).

Câncer de pulmão, nivolumab, pembrolizumab, atezolizumab (leia mais).

Câncer de rim, nivolumab (leia mais).

Carcinoma de Merkel, pembrolizumab (leia mais).

Câncer de cabeça e pescoço, nivolumab (leia mais).

A imunoterapia visa treinar as células de defesa do próprio paciente, para que elas achem e ataquem o tumor.

Existe hoje uma infinidade de estudos com imunoterapia contra os mais diversos tipos de câncer, são centenas de estudos em andamento. É provável que venhamos a utilizar estes medicamentos para a maioria das doenças no futuro.

Uma das mais importantes descobertas sobre a imunoterapia (e a imunidade dos seres humanos) está relacionada à como as células de defesa identificam quais são os alvos que devem ser atacados. Foi notado que estes medicamentos funcionam melhor quando existe uma grande quantidade de mutações no tumor, uma grande quantidade de substâncias diferentes entre o tumor e a célula normal. Por exemplo, estes medicamentos funcionam melhor em pacientes com câncer de pulmão que fumaram no passado, as células dos fumantes são muito danificadas, logo é mais fácil do sistema imunológico reconhecer que aquela célula está doente e deve ser eliminada (veja aqui uma pequena aula sobre imunoterapia, aqui, e aqui).

Foi identificado que existe uma mutação conhecida com deficiência de mismatch repair, ou instabilidade de microssatélites (estes termos significam a mesma coisa cientificamente). Quando o tumor apresenta esta mutação ele começa a produzir uma série de substâncias inúteis para a célula. Como se juntássemos pequenos tijolos de maneira desordenada de modo que nenhuma construção ocorresse. No entanto, quando as células vigilantes do sistema imunológico (conhecidas como células dendríticas) identificam esses fragmentos, elas rapidamente identificam que há algo de errado e atacam a célula defeituosa. Esta mutação foi primeiro identificada em câncer de cólon, em torno de 20% destes cânceres apresentam esta característica, que também ocorre em outras doenças (o percentual em cada uma ainda está em estudo, esta é uma informação muito recente).

Pembrolizumab é um medicamento estimulador do sistema imunológico. Foi realizado um estudo em que este medicamento era dado para todas as pessoas que tinham tumores com instabilidade de microssatélite, sendo eles cânceres de cólon ou não. Independentemente do tipo de doença o medicamento foi capaz de controlar e reduzir a doença. Esta foi a primeira vez na história da oncologia que foi demonstrado que um medicamento funciona para uma mutação específica, independentemente do tipo da doença (Veja aqui o estudo na íntegra)

Nos Estados Unidos este medicamento já está aprovado para ser usado quando há a instabilidade de microssatélites (leia mais aqui).  Atualmente este medicamento está aprovado no Brasil apenas para uso em câncer de pulmão e melanoma (ou para outras doenças off-label, leia mais). Aguardamos sua liberação em todas as indicações.

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